Viagem psicogeográfica pelos Bairros de Lisboa


Fizemos uma viagem pelos bairros de Lisboa. Uma viagem psicogeográfica, pelos painéis da sala onde estão expostos os Mapas Psicogeográficos, de cada bairro, de cada grupo.

Tal como dissemos anteriormente, tudo o que estava nos painéis foi removido e permaneceu apenas exposto o mapa psicogeográfico. Todos os grupos penduraram o seu. Podemos ver todos os mapas nestas fotografias. Alguns bairros já conhecíamos, já lá tínhamos estado, outros ainda não, e ainda há outros que se encaixaram na categoria de "não conheço, mas sei quem é". Discutimos e partilhámos pontos de vista, opiniões, relações e até histórias que vivemos naqueles sítios. 

Alguns mapas levaram-nos a conhecer o respectivo bairro, não da forma como ele realmente é, mas da forma como o grupo quer que nós o vejamos. Outros reavivaram a memória, acrescentaram outro conhecimento e revelaram-nos novas experiências e emoções. Quase que sentimos que estávamos mesmo a fazer uma visita a todos os bairros. Mas não um visita qualquer. A visita que nos mostra aquilo que o grupo sentiu, aquilo que estes querem que nós experienciemos. É interessante ver as diferentes representações psicogeograficas dos outros bairros, que por sua vez nos transmitem diferentes emoções, vistas do bairro e maneiras de nos mergulharmos nele.


Dossier de Pesquisa


De forma a organizarmos a nossa pesquisa e material de trabalho, que vamos desenvolvendo ao longo das fases do Projecto CityLab, construímos um arquivo. Este contém envelopes que separam as categorias e respectivas subcategorias intituladas por nós com o seguintes nomes: Reconhecimento (Desenhos, História, Conversas, Pesquisa), Potlatch, Mapa Psicogeográfico, entre outras. Na abertura do envelope encontra-se as categorias, de forma a que a categoria desejada seja facilmente encontrada. Na parte da frente do envelope encontra-se a subcategoria. Branco, castanho, branco, castanho... Assim se encontram os envelopes correspondentes a cada categoria, para que se identifique facilmente o início e fim de cada uma destas.

Im Keller


Im Keller, In the Basement, Na Cave. Esteve em exibição dia 27 de Abril, no Festival Indie em Lisboa e, depois de ler um artigo no Público sobre este filme e ter-me sido recomendado, não pude deixar de ir ver. Um filme que é fruto da árdua pesquisa de Ulrich Seidl pelas caves da Áustria. Não conta apenas uma história mas várias. Nem há fim nessas histórias, sabe-se que continuam até hoje. Das várias histórias abordadas vou realçar as que mais me marcaram.

Começando por uma mulher que se fecha na cave a cuidar de bebés de plástico, que parecem reais, e "dormem" em caixas de cartão. A dedicação dela para com os bonecos é arrepiante. Parecia que ela é que lhes dava vida, levava-os às partes da casa com onde o Sol incidia e dizia-lhes os sítios onde o "papá" costumava estar.

Em segundo lugar, o trompetista nazi e os políticos locais de um partido popular que se reuniam na cave para beber e conversa, em frente a um retrato de Hitler, não foi algo que me tenha surpreendido, porque não passava de um grupo que se reunia para falar de política - ainda que defensores de ideais nazistas -, tal como acontece em todos os locais do mundo. O que me impressionou foi ler, antes de ver o filme, que este grupo de políticos, após a estreia do filme, se tiveram de demitir devido ao culto nazi que era desconhecido por todos. 

Segue-se a mulher que "dominava" o marido, tratando-o como um cão ou, como popularmente se diz, "abaixo de cão". Foi a que mais me chocou. Mas talvez aquela que mais me tenha prendido ao filme, por toda a indignação/raiva que senti por haver pessoas assim. Desde obrigá-lo a lamber o tampo da sanita e a banheira, a obrigá-lo a ser o seu "papel higiénico" ao limpá-la depois de fazer as necessidades, até mesmo ao facto dele andar sempre de gatas e com uma coleira. Mas o pior era o que se passava na cave e não em casa. Era lá que, segundo ela, ela era mais dominante. Para ela, ele era o seu escravo e tudo dele pertencia-lhe. Fazia coisas como pendurar-lhe os testículos ou enfiar-lhe objectos com quase 10 cm de diâmetro no anús. Há cenas mais explícitas que outras, mas mesmo aquelas em que apenas se ouvem os gemidos de dor do homem fazem muita confusão, pois imaginamos tudo mesmo sem estar a ver. Dá vontade de tirá-lo de lá. Mas será que ele lá está porque quer? Que parvo. Tudo me vinha à cabeça.

Ainda neste ambiente de sadomasoquismo, surge uma mulher artisticamente vestida de cordas grossas, que não tapavam as partes mais intimas do seu corpo. Apenas ela, com uma parede no fundo, conta para a câmara que deixou o marido que lhe batia e aconselha todas as mulheres a não ficarem com homens violentos. Este monólogo é intercalado com imagens dela curvada sobre uma mesa, de pernas abertas, com um homem a chicoteá-la no rabo, que depois afirma gostar e diz que a leva a um estado de prazer pleno. Estranho. Então mas gosta ou não gosta? Os risos surgem quando diz que trabalha na Cáritas para ajudar mulheres vítimas de violência doméstica.

Para concluir, este filme pertende, sem dúvida, criar polémica. Obviamente, não é isto que acontece em todas as caves da Áustria, mas acontece em muito mais do que estas e não só na Áustria mas em todo o mundo, em caves e não só. A forma como aborda a sexualidade, no seu lado mais agressivo e repugnante - do meu ponto de vista - é para nos manter agarrados ao filme e pensar nele nos dias a seguir, relacionando-o com a nossa vida, na medida em que todos nós temos vícios, uns mais bizarros que outros, e deviamos reflectir sobre isso, sobre a sociedade. Temos de pensar sobre as "verdades desagradáveis" que nos rodeiam e é a isso que Seidl nos leva.

MERD À SOMBRA 1 | Resultado Final


Olhááááááááááááááááááááááááááááááááááááááááááááááááááááááááá MERD À SOMBRA!

MERD À SOMBRA reflete toda a essência do bairro. É um jornal crítico que expõe sarcasticamente a passividade que cobre as não-ações da população do Bairro da Liberdade. Os moradores não se revoltam contra as parcas condições em que vivem, tanto falta de água canalizada como a própria casa ser pouco mais que uma barraca melhorada.

Obviamente, a sátira começa no nome do jornal e estende-se pelos artigos, com especial incidência no “testemunho de libertino rapaz”. A referência formal é o primeiro fascículo da revista MERZ. No entanto, vários foram os conteúdos inspirados quer em experiências da Grécia Clássica (bostro fredor na página 4), quer na música 5ª Sinfonia de Beethoven, ou na cultura popular portuguesa na página 9.

Parte da crítica exercida sobre a inércia da maior parte dos moradores é apoiada pelo Ultimatum Futurista de Almada Negreiros nas páginas 5 e 6. Ademais, e o que resume e conclui o propósito da primeira edição do jornal, é o decreto-lei da décima página. A lei decreta que todo o morador do Bairro da Liberdade deverá ser condenado à damnatio memoriae (apagamento da História), e portanto ficar confinado à área do bairro, caso resista às ações libertadoras de Diogo Alves.

Os textos são apoiados pelo tipo Perpetua de Eric Gill, que por sua vez se inspira em gravações em pedra mas que, dado à sua relação com a sua filha Perpetua, confere ao texto a dualidade de uma séria legibilidade com uma história nada convencional, rompendo com as regras morais tal como o movimento dadaísta rompe com as convenções artísticas.